Microrredes e o papel das concessionárias de distribuição

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O setor elétrico brasileiro está passando por uma transformação significativa, impulsionada pela digitalização e descentralização da geração de energia. Nesse cenário, as concessionárias de distribuição podem assumir um novo papel estratégico, operando como pequenos Operadores Nacionais do Sistema (ONS) locais, capazes de orquestrar diferentes recursos energéticos e garantir maior estabilidade à rede, segundo a visão da Copel, concessionária paranaense de distribuição de energia, que atende 395 municípios do Paraná e um município de Santa Catarina, com mais de cinco milhões de unidades consumidoras.

Uma das soluções que viabilizam essa transição é a implementação de microrredes, que permitem o funcionamento autônomo em situações de falha no fornecimento convencional. A Copel tem investido em projetos de inovação que integram automação, geração distribuída e armazenamento de energia para fortalecer a resiliência do sistema elétrico.

Para entender mais sobre a visão e contribuição da Copel, a pv magazine conversou com Diretor Comercial da Copel Distribuição, Julio Omori. “Aqui aplicamos o conceito de desligar e alimentar parte da rede. Esse é um dos princípios que estamos explorando na Copel. No caso específico de São Miguel do Oeste, perto de Foz do Iguaçu, utilizamos um gerador a biogás de dejetos suínos. Quando ocorre um defeito no sistema, ele automaticamente estabelece uma ilha e continua alimentando suas cargas e os vizinhos”.

De acordo com o executivo, uma microrrede didática está em funcionamento no principal atrativo turístico de Curitiba, o Parque Barigui. Além disso, há o caso do Columbari, que é o único do Brasil e já recebeu prêmios importantes, como o melhor trabalho no SNPTE e no SNGIE.

A integração foi feita ao sistema de automação da rede elétrica da Copel, conhecido como Self-Healing. Esse sistema isola automaticamente os trechos defeituosos da rede, mantendo o restante operacional. O controlador da microrrede (Microgrid Controller – MGC) interage com os equipamentos da rede, assegurando que a tensão e a frequência estejam dentro dos parâmetros antes de reestabelecer a conexão com os consumidores. Desde a implementação, em 2022, a microrrede operou 96 vezes em casos de interrupção do fornecimento de energia, garantindo continuidade aos vizinhos.

“Esse é um modelo inovador. Desconheço algo parecido em que um gerador de pequeno porte consiga alimentar parte da rede. Imagine o potencial de um gerador maior, como uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) ou Central Geradora Hidrelétrica (CGH)”, destaca Omori.

Incentivo às microrredes

Segundo o executivo, a ideia de comprar energia para constituir microrredes foi justamente para viabilizar a aquisição de energia de terceiros. No entanto, há um desafio. “O consumidor que fornece esse serviço ancilar para o sistema, ajudando a alimentar os vizinhos, não recebe nada a mais por isso. Esse modelo não incentiva a adoção das microrredes, pois o investimento necessário para os equipamentos e a proteção da rede não se paga apenas com compensação de energia”, afirma.

O executivo ressalta que, para garantir a segurança da rede, a Copel exige controle contínuo das microrredes pelo centro de operações. “Não renunciamos ao monitoramento 24/7 para evitar riscos ao sistema. A tecnologia é essencial para isso. Todos os pontos precisam ser supervisionados constantemente”.

Uma das propostas da Copel foi realizar chamadas públicas para compra de energia, estabelecendo um preço-teto junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Quem vendesse energia teria que obrigatoriamente utilizá-la para atender parte da carga do sistema quando solicitado. “Essa proposta virou um texto de resolução regulatória sobre o uso de microrredes. Ela nasceu da necessidade de reconhecer o papel desses geradores no suporte ao sistema elétrico”, explica.

Omori relembra que, em 2010, a Copel criou um projeto experimental em parceria com a Aneel para permitir que pequenos geradores de baixa tensão vendessem energia, algo que não existia até então. “Com o avanço do sistema de compensação, esse modelo experimental deixou de existir, o que desmotivou a criação de novas microrredes. Por isso, defendemos um incentivo adicional para que geradores privados enxerguem valor nesse investimento.”

A gestão de microrredes e o futuro da distribuição de energia

A Copel está investindo em um novo sistema de gerenciamento para seu centro de controle, chamado DERMS (Distributed Energy Resource Management System). “Hoje, operamos com o ADMS (Advanced Distribution Management System), que gerencia a rede de distribuição. O próximo passo é atuar como um pequeno operador de sistema, controlando os recursos energéticos distribuídos, como microrredes, geração distribuída e armazenamento de energia”, explica Omori.

Os medidores inteligentes desempenham um papel essencial nesse avanço. “Já instalamos 1,2 milhão de pontos no Paraná e pretendemos chegar a 2 milhões até o final do ano. Isso permitirá um controle mais refinado das cargas, facilitando a operação das microrredes”.

A digitalização da rede elétrica é um pré-requisito para esse futuro, com medidores inteligentes, automação da rede e comunicação de dados. “Nosso objetivo é orquestrar microrredes de forma eficiente, garantindo benefícios tanto para o sistema elétrico quanto para os consumidores”, destaca.

Projetos-piloto e novas aplicações

A Copel está testando um sistema híbrido no agronegócio, integrando baterias e geração solar para alimentar cargas críticas. “Esse inversor conversa diretamente com nossos equipamentos da rede inteligente, permitindo ajustes em tempo real. Isso significa que podemos, por exemplo, mitigar problemas de fluxo inverso ao interagir com os inversores fotovoltaicos. No futuro, essa tecnologia permitirá que os consumidores sejam remunerados por colaborar com a estabilidade da rede.”

Omori reforça que essa transição não acontece do dia para a noite. “É necessário pavimentar esse caminho com infraestrutura e tecnologia. A interoperabilidade entre inversores, medidores inteligentes e sistemas de automação é essencial. Estamos criando uma rede de comunicação integrada que permite essa interação.”

A Copel lidera esse movimento no Brasil, enquanto outras distribuidoras continuam avançando aos poucos. “A Copel já possui o maior número de medidores inteligentes instalados no país. A sinergia entre geração distribuída e redes inteligentes é o verdadeiro ‘pulo do gato’ para o futuro do setor elétrico”, finaliza o executivo.

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