A restrição de geração de fontes renováveis, conhecida como curtailment, tem ganhado destaque no setor elétrico brasileiro, evidenciando a contradição entre o “excesso” de geração eólica e solar e o acionamento das usinas térmicas, necessário para manter aceitáveis os níveis dos reservatórios das hidrelétricas. Essa situação reflete a falta de coordenação entre investimentos em infraestrutura elétrica, resultando na restrição de fontes renováveis abundantes e baratas, o que impacta diretamente a rentabilidade desses ativos e encarece a conta de luz dos consumidores brasileiros, aponta a gestora de investimentos Equus Capital.
Após o apagão em outubro de 2023, houve um aumento perceptível nos cortes de geradoras renováveis, sob a alegação de ser necessário manter o nível de confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN). Entre 2023 e 2024, o índice de curtailment mais do que dobrou. Nos últimos 12 meses, o estado do Rio Grande do Norte foi disparado o estado mais afetado, tendo em média 4,72% da sua geração programada restringida em comparação com o Ceará e Minas Gerais que completam o pódio com 1,35% e 1,05%. Entretanto, esses valores não representam toda a energia desperdiçada, uma vez que o curtailment considera apenas a diferença entre o programado e o realizado, desconsiderando o máximo de energia que poderia ser gerada naquele momento.
“Criamos índices exclusivos que permitem uma análise abrangente da capacidade da rede em absorver as flutuações da geração renovável e além de quantificar o curtailment, conseguimos avaliar desperdício total de energia por subestação. Isso é essencial porque o impacto na rentabilidade dos ativos é significativo”, ressalta o executivo da Equus Capital, Pedro Coletta.
No mês de novembro, essas regiões poderiam ter gerado 25%, 16% e 8% a mais, respectivamente, do que o programado pelo operador nacional do sistema. Ao considerar toda a energia que poderia ser gerada a partir dos ventos e do sol que foi descartada pelo SIN, os números são alarmantes: mais de 22.000 GWh de julho a outubro de 2024, o equivalente a 63% de toda a geração térmica no período. Isso significa que os investidores estão sendo impossibilitados de aproveitar os recursos das regiões onde decidiram investir, diminuindo a rentabilidade das renováveis. Por outro lado, o consumidor está sendo privado de acesso à energia barata e enfrenta aumentos na conta de luz devido ao acionamento das bandeiras tarifárias, que pressionam a inflação. Segundo o estudo realizado pela Equus Capital, o prejuízo acumulado das geradoras em 2024 ultrapassa 1,8 bilhão de reais.
“O Brasil poderia se posicionar como um polo global de energia limpa e barata, mas está perdendo essa vantagem competitiva devido ao atraso na expansão da infraestrutura de transmissão que conecta os novos centros geradores do Nordeste aos reservatórios hidráulicos existentes. Estamos subutilizando os potenciais do nosso sistema elétrico”, declara Coletta.
Embora algum nível de curtailment seja esperado com o crescimento da geração intermitente, o Brasil já dispõe de uma capacidade única para lidar com essa realidade, graças aos seus reservatórios hidráulicos e à experiência com modelos estocásticos de geração de energia. Para aproveitar plenamente essa vantagem, é urgente acelerar a integração das fontes solares e eólicas aos centros consumidores e aos grandes reservatórios, bem como promover tecnologias que aumentem a flexibilidade operacional do SIN.
Medidas como programas de gestão de demanda, uso de baterias nas redes de transmissão, melhorias nos prognósticos de geração e maior digitalização do sistema são essenciais para aumentar a eficiência e a resiliência do setor elétrico brasileiro no curto e longo prazo. O Brasil tem o potencial de usufruir de energia abundante e barata, tornando-se novamente um destino atrativo para investimentos globais. No entanto, alcançar esse cenário depende de ações imediatas para modernizar regulação e regras de mercado para dar os sinais corretos aos investidores
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